Saudade é o corpo ardente que sente calafrios por quem não veio, e que permanece vazio ao mesmo tempo em que cheio...

Paulo Cesar Coelho

A mulher é a poesia que todo poeta sonha fazer.

Textos


Conversa de Gênios à Beira do Invisível

 

 

Na varanda do silêncio,

Onde o tempo desaprendeu a correr,

Sentaram-se juntos —

Machado de Assis, com seu olhar de dentro

E Guimarães Rosa inventando o idioma do vento.

 

A alma — disse Machado —

É um labirinto que se escreve sozinho.

 

Do nada, respondeu Rosa

— Alma é coisa que se desouve e se reouve no meio do mato.

 

E ali, no chão, distraído com formigas e eternidades

Manoel de Barros catava as insignificâncias:

 

— O importante não é o verbo,

É o desverbo das coisas pequenas.

 

De repente, uma música atravessou o ar

Como se o céu resolvesse sussurrar em acordes

Era um tom, o Tom Jobim, afinando o silêncio

Em acordes de saudade:

 

— O amor é uma nota que insiste…

Mesmo quando a canção acaba.

 

E quem ouviu, chorou bonito!

Até o Chico, com meio sorriso triste, disparou:

 

— E às vezes a gente escreve, só para não dizer o que dói!

 

Lá, no fundo, mexendo com os fios invisíveis do pensamento

Miguel Nicolelis murmurava:

 

— O cérebro é ponte… Mas ninguém sabe ainda de onde vem o rio.

— Nem para onde voa — interrompeu, rindo leve, Santos Dumont,

Com as mãos ainda cheias de céu:

— Eu só confiei no impossível…

E ele me carregou.

 

Então, uma mulher de silêncio aceso, Clarice Lispector

Fechou os olhos para dizer, como quem não diz nada:

 

— Entender é tão limitado…

Melhor é sentir até não caber mais.

 

E foi quando tudo fez sentido

Ou deixou de fazer, sendo quase a mesma coisa.

E no canto da mesa, como quem já sabia de tudo antes,

Um poeta — talvez você —

anotava:

Que a genialidade

Não mora no saber…

Mora no instante

Em que a alma

Transborda.

Paulo Cesar Coelho
Enviado por Paulo Cesar Coelho em 25/03/2026
Alterado em 27/05/2026
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