Saudade é o corpo ardente que sente calafrios por quem não veio, e que permanece vazio ao mesmo tempo em que cheio...

Paulo Cesar Coelho

A mulher é a poesia que todo poeta sonha fazer.

Textos


Desaparecimentos da Memória no Alzheimer

 

O corpo ainda caminha,

mas já não sabe para onde vai.

Há um silêncio crescendo

dentro da cabeça —

como casa abandonada

onde os móveis esquecem seus nomes.

As mãos ainda tocam,

mas não reconhecem o calor

do que sempre foi abrigo.

E o tempo…

Ah, o tempo deixa de ser linha

e vira um emaranhado de instantes

sem começo, nem depois.

 

Ter Alzheimer

é desaprender-se aos poucos:

primeiro os nomes,

depois os rostos,

por fim, o espelho.

O corpo vai se encurvando

como quem pede desculpas à vida,

e a vida, sem entender,

vai ficando.

Mas às vezes —

(é preciso dizer isso baixinho) —

uma lembrança acende

feito vaga-lume na noite.

Um lampejo:

um riso antigo,

um nome sussurrado,

um amor que não esqueceu de ser.

E então percebemos:

Nem tudo morre de uma vez.

Há coisas que resistem

mesmo quando a memória parte.

Talvez a alma

não saiba adoecer.

Paulo Cesar Coelho
Enviado por Paulo Cesar Coelho em 13/04/2026
Alterado em 13/04/2026
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